Leis espirituais

EspiritualidadeProf. Guilherme Mendes

“Certamente há um direito possível para vós, que inclui a necessidade de ponderação e escolha desejosa. Para vós há uma realidade, um lugar adequado e deveres congênitos. Ponde-vos no meio da corrente de energia e sabedoria que anima a todos por ela inundados, e sereis impelido sem esforço à verdade, ao certo e ao perfeito contentamento.” (Ralph Waldo Emerson – Ensaios)

Pela beleza e pelo poder oculto que existe na natureza, admiramos com louvor todas as formas agradáveis que a memória nos proporciona. Os momentos bons, os momentos ruins, o belo e o trágico permanecem impassíveis no grande livro da vida. Embora o nosso juízo empreenda sentimentos para cada evento na história, afirmamos um acolhimento da alma, o que nos impele a refletir e prever o futuro.

Nenhum ser existe para o nada. Tal hipótese poderia ser facilmente refutada se não houvesse razão para o homem e pisar seus pés e trilhar seu caminho na Terra. Entretanto, o ser humano herdou um mundo de possibilidades e diversos caminhos para firmar seu solo e suas heranças. Este mundo impera uma possibilidade, ainda que subjetiva, de contemplação e exercício das faculdades interiores, o que é inspirador e revelador, pois os dons que nos são concedidos nos fazem únicos. Como proferiu o filósofo Emerson, cada ser humano esconde um segredo da natureza.

Este mundo não é perfeito, e jamais será. As estreitezas de uma sociedade corrupta e marginalizada não podem jamais ocupar a via sacra da verdade no coração dos homens justos. As veredas que subsistem nos corações doentios se proliferam como pragas, que corrompem e fazem o outro sofrer. Entretanto, o arame pode ser mais espesso e espinhoso para os homens de bem, mas ele é vigilante e mortal para os que violam as temperanças da justiça. O bem sempre combaterá o mal, mas afirmar que um ou outro seja excomungado da realidade é algo grotesco por demais para ser admitido.

Há uma fatalidade que se sucede nos destinos humanos: o que pratica o mal parece ser absolvido de culpa sobre seus crimes perante a sociedade, e o que pratica o bem parece ser rechaçado e crucificado até a última instância do sofrimento. Percebe-se tal fenômeno quando observamos nos fatos cotidianos que um político corrupto é solto da prisão, uma semana após cometer um delito grave contra a nação, e um trabalhador comum é preso injustamente e por longo período por um crime que não cometeu.

Todavia, a justiça manifesta a sua força com a têmpera do aço, na medida e expressão silenciosas e infalíveis do tempo, desqualificando e eliminando o que não é essencial. Os impérios que praticaram crueldades no mundo antigo não persistiram por muito no fluxo da história. Ditadores e carrascos que se autointitulavam donos de seu próprio queixo sumiram como pó, porque violaram as leis de um mundo regido pela natureza espiritual.

O mal nunca deixará de existir, mas o bem que é praticado deve ser fertilizado e perpetuado no âmago dos corações. A vocação, que é a dádiva recebida pelos humanos para fixar a sua justa medida no mundo, deve ser objeto de sincero investimento, afinal, a simplicidade e força expressiva da natureza não está naquilo que pode ser compreendido, e sim naquilo que é permanente e inexaurível.

O ser humano é direcionado para uma infinidade de espaços que se conectam para o acolher em sua vocação. Ele tem faculdades que silenciosamente o atraem para uma determinada direção. Ele é destinado a executar uma tarefa que nenhum outro ser poderá fazer ou viver da mesma forma. Quando as almas entram em conflito por juízo de uma atividade, o fazem porque desconhecem as leis da natureza, que proporciona a todos os indivíduos dimensões de alcance espiritual muito diferentes e particulares.

O gênio do ser humano, a suscetibilidade de suas escolhas e influências, e a rejeição do que não lhe agrada fomentam a intrepidez e afirmação vorazes de sua própria individualidade no universo. Para o sábio, interpretar as dimensões da alma, ao invés de julgá-las, é aceitar que o universo humano expande o seu espaço e caminha em alguma direção, para a qual não cabe ao homem transcender. Só lhe resta continuar caminhando e manifestando suas ações.

Não me resta dúvidas de que esse mundo é um mundo de leis espirituais. É um mundo que abrange uma infinitude de pequenos universos, visto que nós somos feitos das mesmas propriedades que o universo. Somos capilares sensíveis de uma grande alma universal, que desconhece limites para medir a acumulação do elemento sutil. Como afirmou o filósofo Emerson em seu livro Ensaios:

“Os céus são amplos e têm lugar para todos os tipos de amor e fortaleza. Por que deveríamos ser abelhudos e subservientes? A ação e a inação são semelhantes para a verdade. Uma parte da árvore é cortada para uma rosa-dos-ventos, outra para o dormente de uma ponte; a virtude da madeira é aparente em ambos.”

Um abraço!

Referência para consulta:

– EMERSON, R. W. Ensaios. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1994.

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