A crise existencial na modernidade e o propósito da educação

crise_existencialProf. Guilherme Mendes

Uma crise dolorosa para o ser humano no mundo atual é a crise existencial. Essa crise pode ser caracterizada como uma crise de frustração, pela qual se evidenciam sofrimentos e catarses proclamados pela sensação do vazio.

O ser humano é capaz de realizar coisas realmente fantásticas, mas a dinâmica dos tempos modernos que vivemos muitas vezes impede o ser humano de aprimorar suas qualidades latentes. Tal fato é evidente em trabalhadores de longa e árdua jornada, cujo viver cotidiano é altamente propício e resumido à pressão em busca de resultados, ao estresse, à frustração e consequentemente, perda de saúde.

A própria dinâmica do mundo competitivo se torna uma lástima para as pessoas que não conseguem administrar ou diminuir suas abrangências. O homem moderno vive uma eterna encruzilhada, pois precisa se adaptar e muitas vezes abrir mão das coisas que deseja em prol dos objetivos e prioridades das organizações.

Diante das complexidades que marcam o estilo de vida na atualidade, é compreensível que cada vez mais as pessoas se questionem sobre a veracidade de suas crenças sobre o trabalho, sobre a própria vida e mesmo sobre o destino. Por que trabalhar e sofrer tanto, se, de fato, o que gostaríamos mesmo é de aproveitar a família, o tempo, os esforços e a vida em geral com mais qualidade!?

O homem moderno está sensivelmente perdendo a noção de sua existencialidade. Filósofos e escritores da escola antiga proclamavam que a vida não teria sentido algum: o homem nasce e morre, e no meio do caminho, está fadado a viver uma vida de sofrimentos e obscuridades sem fim.

Se tal pensamento, fruto da mentalidade niilista de frustração existencial, faz parte da visão dos intelectuais da velha guarda, eu lamento profundamente pelo fato de suas visões viscerais se procederem tão pessimistas e fatalistas em sentido obscuro, por assim dizer. Essa visão anticósmica da existência não passa de uma falácia, cuja perspectiva, nas palavras do filósofo brasileiro Huberto Rohden, é parcial e incompleta, resultado de uma instrução unilateral do ego periférico, sem uma instrução de integridade.

Compreende-se por ego periférico, de acordo com as palavras do autor, o círculo vicioso em torno de um vácuo. Se o homem não conhece a sua direção, se nada sabe sobre a sua verdadeira natureza, e da finalidade real de todas as suas qualidades, não encontrará consolo para suas ações e à projeção do seu eu nesse mundo.

Em meio às desorientações da vida moderna, o homem precisa de orientações gerais, especialmente sobre a direção de sua vida e sobre o mundo dos valores, que constitui o âmago da Educação.

Albert Einstein resume maravilhosamente sobre os progressos e limitações da ciência, e a criação de valores dentro de nós mesmos quando afirmou: “o mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores – estes vêm de outra região.”

A ciência não pode indicar os esforços necessários para justificar a finalidade da vida terrestre. Essa certeza não pode ser concebida pelo mundo dos fatos, ou do ego, que se ocupa, sobretudo, da instrução. O mundo dos valores, entretanto, é o mundo que se ocupa da integridade dos sentidos físico, mental e espiritual. É o equilíbrio, que permite ao ser humano alinhar as desorientações para superar a frustração existencial e atrofiamento diante das circunstâncias da vida.

A educação, nesse sentido, oferece valorosa condição de virtuosidade sobre as ações e valores do ser no mundo, uma vez que a sua finalidade é oferecer subsídios para a realização existencial. Esses subsídios devem contemplar elementos que potencializem as vibrações latentes mais criativas do ser humano, e não se caracterizarem como meras instruções a serem descartadas na lacuna do tempo.

Embora existam motivos para o ser humano se decepcionar com o mundo no estado em que se encontra, sempre haverá uma faísca no fundo do túnel, em que a realização se encontra com as necessidades do indivíduo. Essa realização diz respeito única e exclusivamente à própria pessoa, e a mais ninguém.

A educação integral permite que o homem reflita sua vida sobre os seguintes aspectos:

  1. A importância de “questionar” as estruturas emergentes, tornando-se um ativista em prol da justiça, da honestidade, do amor, da bondade e da fraternidade universal.
  2. A certeza de viver com a consciência livre de corrupções e desalinhamentos interiores que criam a injustiça e fazem os outros sofrerem, tornando-se um elemento ativo em harmonia com as leis cósmicas e da natureza.
  3. A visão panorâmica que impele ao progresso individual, que poderá exigir sacrifícios, renúncias e treinamento árduo e disciplinado, mas que cultivarão as sementes da vitória e da satisfação no futuro.
  4. A experiência de contemplar e cultivar um sentido fraternal e espiritual com toda a humanidade, compreendendo suas dificuldades, suas limitações e abrangências, tornando-se um veículo para a empatia e a tolerância para com as diversidades culturais existentes.
  5. A oportunidade para desbravar suas qualidades e competências interiores mais profundas, despertando o desejo do saber técnico, científico e do cotidiano comum a todas as pessoas.

A visão nítida do ser humano sobre suas potencialidades e sobre o ideal nobre e virtuoso da educação para sua existência certamente dará ao cidadão condições para superar os desgostos e sofrimentos temporários da vida. Na educação reside um propósito digno para um viver pleno e consciente.

Uma das maiores dificuldades vigentes das instituições educacionais e da sociedade está em não ter uma visão panorâmica da existência total e permanente. É preciso um olhar mais cuidadoso e pertinente de pais, educadores e educandos para não se perderem em meio às crises que o planeta vive. Caso contrário, estaremos sempre repetindo as ações do passado, negligenciando as premissas do presente e desvalorizando as intenções para o futuro.

“A autoeducação é a autorrealização.”

Um abraço!

Guilherme Valentim Mendes / E-mail para contato: gvm86@uol.com.br

Referência para consulta:

– ROHDEN, Huberto. Educação do homem integral. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda., 2005.

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