Diário de um brasileiro sonhador

sonhadorProf. Guilherme Mendes

Carta de um cidadão brasileiro para uma companheira chamada “desilusão”:

Hoje acordei com o seu sussurro latejando em meus ouvidos. Liguei a televisão – atitude mais ingênua e burra para um primeiro momento da manhã – e detive-me a acompanhar o noticiário, prestes a reparar e lamentar as infâmias e tristes notícias sobre meu povo e meu país. Até hoje não entendo porque me abstenho das vontades do meu espírito para seguir uma rotina de abatimentos tão cruéis e impregnados de injustiça, que só me enchem de desprezo. Talvez seja a sua presença, minha cara “desilusão”, que só atormenta as planícies límpidas que ainda restam em minha alma.

Até quando irei encontrá-la, e até quando irei suportá-la, inóspita rebelde!? As notícias contemplam a convivência do cidadão com a persistência do escândalo moral, os ladrões que infestam os comércios e sacaneiam a classe trabalhadora, sofrida e oprimida. Os repórteres enfatizam com grande emoção os escárnios e os infortúnios que parecem amaldiçoar a vida dos jovens, dignos estudantes e sonhadores, que ao invés de voltarem tranquilos para suas casas após um árduo dia de estudos, sofrem na pele a violência e o assalto dos insanos, delinquentes e desprovidos de juízo e educação. As mulheres e os homossexuais enfrentam a injustiça do preconceito, esse mal propulsor da obstinação de uma nação que desconhece o sentido do termo “tolerância” e da virtude chamada “compaixão”.

É insuportável a rotina que a peste maligna da corrupção e do desânimo assola sobre os justos do meu país. Entretanto, mantenho-me na expectativa da mudança, e sustento a validez dos meus dias com grande energia e sagacidade para trabalhar e servir. Porém, em meu peito, ás vezes sinto a alma proclamar com grande veemência a dúvida que me faz questionar para onde se destinará todo esse esforço e doação dos meus dias…

As pessoas das cidades grandes vivem assustadas, porque a segurança é frágil e rompe ao primeiro vacilo das distrações. Já não olhamos os nossos próximos com compaixão, mas com zelo e desconfiança. A sociedade parece negligenciar o valor das boas ações, e recuar sobre a esperança de uma possível união. O dia aponta com letal reverência as hostilidades e a franqueza brutal dos marginalizados, e a cada nova manhã pressinto um povo mais desunido, corrompido e incapaz de acreditar em si mesmo, quanto mais em seu país.

Na minha humilde residência, componho as cartas que me fazem repensar o sentido da minha existência, e trabalho incansavelmente, com a disposição e o ímpeto de um sonhador. Não se precipite, minha cara “desilusão”! Dentro de mim existe um arsenal de qualidades que não vacilam, muito menos tropeçam sobre a intemperança, sobre a falência do juízo e a imoralidade. Compreendo as fraquezas que abrasam a enfermidade do meu povo, mas reconheço na tenacidade do meu espírito a luz que me guia para não desanimar pelas malícias e intempéries alheias.

Apesar de todo o mal propagado por uma política corrompida e gananciosa (que zomba dos cidadãos e exibe com veemência suas pompas), de todos os tropeços que ecoam no alicerce de uma nação potencialmente rica, e das penosas evidências de uma dura realidade, ruge em mim uma gana que extermina as contradições mais ferozes. Não serei eu a substância prima do universo que trairá o próprio coração e os próprios valores. Enquanto houver motivos para fazer brilhar minha vocação e o universo dentro de mim, continuarei a servir e a propagar o tesouro do exemplo, da virtude e do compromisso, tornando-me veículo do espírito e guiando minha família e as futuras gerações para combater o bom combate.

Não trairei minha pátria, como aqueles que seguem a manada de lobos que se estupefazem com a desgraça alheia, e que amaldiçoam a vida dos seus semelhantes. Não serei um profano homem de pedra, mas ficarei atento às necessidades mais emergentes daqueles que sofrem e anseiam por ajuda. Minhas mãos e meus pés jamais vacilarão pelo vale sombrio da miséria moral.

Lembrei-me das palavras do grande poeta Thiago de Mello:

Do povo vai depender

a vida que vai viver,

quando um dia merecer.

Vai doer. Vai aprender.

Reconheço, minha cara desilusão, que a tua obra não pode ser maior que a obra de uma nação unida pelo bem comum. Reconheço que permanecerás por um longo tempo rondando sobre as veredas cinzentas das mentes alheias. Ainda que convivas nas entranhas da injustiça, haverá inevitavelmente um rompimento do cordão umbilical que une o cidadão à desgraça, pois todo mal há de ser repelido pelo varão da justiça, quando não mais olharmos para o céu tenebroso com indiferença, nem quando sorrirmos aos pés dos malfeitores, mas, quando abraçados na luta pelo bem, destilarmos as nuances gloriosas de um lampejo chamado “consciência”.

Grandiosa é a verdadeira consciência, que desfaz as vertigens venenosas do ego e destina as ações humanas em prol do bem comum, rompendo definitivamente com a maldade e a corrupção, e colhendo incessantemente os frutos da virtude, da cidadania e do trabalho.

Para o ontem, para o hoje e para todo o sempre, rompo contigo, minha cara “desilusão”.

Guilherme Valentim Mendes / E-mail para contato: gvm86@uol.com.br

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