O que se leva desta vida? – Um breve pensamento

vida_plantaProf. Guilherme Mendes

Por um breve momento de descanso, no emergir dos recessos poeirentos da mente inquieta, indaguei sobre a seguinte reflexão: o que se leva deste mundo? Ao menos queria eu levar duas lembranças: servir a humanidade com as minhas capacidades e ter a certeza de amar e ser amado pelos amigos e pelos próximos que tanto estimo.

Todavia, prefiro partir levando nada, nem mesmo a memória. A memória não passa de substância material, urdida por complexos neurais e redes de associação que sintetizam os relevos abstratos da mente. Por sua vez, o corpo perambulará pelo mundo, mas um dia há de perecer e findar. No fim dos dias, servirá como adubo para o solo fértil, carbono de qualidade.

Descarto tudo o que é inútil, e, se nada levo, o que pretendo deixar sobre minha autoria são os efeitos das experiências, os corações que toquei através dos meus valores (pela força do exemplo), e a sintonia íntima com a natureza e o criador, pois a vida já me deu tudo, desde que nasci. Nesse ponto, concluo que minha missão é devolver à natureza aquilo que ela me deu de bom grado. Deixarei o que já não mais me pertence e que seguirá seu próprio fluxo: o amor, os filhos, os livros, as esperanças e os talentos.

Até o fim de minha breve existência, eu dilaçaria do meu peito a má consciência, e transbordaria um turbante de sentimentos poderosos, o gosto do bom viver, o resgate da inocência dos gestos de uma criança, e a fome do saber que desafoga sobre uma alma inquieta e obstinada. Eu elevaria a minha força de vontade ao cume mais alto das montanhas do coração, e construiria pontes ao invés de muros em meus relacionamentos. Nos momentos mais obscuros e tenebrosos da vida, eu faria emergir das nascentes da alma o fogo da fênix, que renasce das cinzas para viver uma nova vida.

Eu sonharia acordado, para perceber que tudo não passa de vaidade. Eu me instruiria e me apoiaria nas virtudes e na sabedoria, certezas infalíveis que permeiam o caminho do ser um humano no transcorrer das eras. Eu tocaria ao menos uma alma com o fervor entusiasta das minhas convicções sobre o amor, a paz e a justiça.

Minha casa ainda carece de uma determinada varredura. O âmago da minha ambição ainda se encontra incompleto e incomodado, mas consciente. Os afazeres da vida reclamam do meu amor. São as obrigações que fico devendo à vida. Nos gestos mais simples do coração, residem as respostas mais permanentes do juízo, e, portanto, não posso vacilar. Serei constante e firme como o aço. Se a impiedosa escritura do mundo aponta para os indícios da maldade e da perversão, não serei eu que darei prosseguimento ao declínio das intenções. Enquanto houver um sopro de vida, continuarei a transmitir incansavelmente as energias de um espírito lúcido e sagaz, convencido da verdade que tanto pressiona as lápides da vontade e da superação.

Tudo o que o homem faz não é perecível no tempo. Somos manchados de limites, porém capazes de dar a vida a qualquer coisa que dure para sempre. O ser humano está aqui somente pelo “fazer”. O fazer é a virtude mais real e duradoura, pois é ele que satisfaz os nossos dias, soletrando as magnificências que jorram pelos atos de coragem, de boas e generosas intenções, e de rejeição ao que é profano e superficial.

Milhares de tempos mais tarde, após vasculhar as vastas planícies dos anseios e angústias em meu íntimo, talvez um dia, com alguma consideração, me torne uma ínfima partícula de terra, ajudando as relvas das colinas a se sustentarem, um mísero sopro de vida nos recipientes cristalinos que jazem no interior dos corações humanos. Porventura, serei feliz, se até o fim dos meus dias, “viver” e não somente existir.

Um abraço!

Guilherme Valentim Mendes / E-mail para contato: gvm86@uol.com.br

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