A nobre peregrinação dos que educam

professorProf. Guilherme Mendes

Para cada verso que um digno professor escreve no livro da poesia do ensino, dissemina uma ideia de valor e profundidade. Construída com imenso trabalho, sacrifício e amor, a poesia parece ecoar o canto singelo das andorinhas, eternas peregrinas que trafegam livremente aos quatro ventos mundo afora, atraindo a atenção e a perplexidade daqueles que as apreciam.

O ofício de educar é uma tarefa para gigantes, uma vocação que transcende a subjetividade da vida comum, uma concepção reluzente sobre a escuridão da ignorância. Quem poderá compreender os pensamentos e sentimentos daqueles que desejaram um dia prosseguir a estrada da compaixão, do trabalho árduo e rotineiro, e do sacrifício voluntário?

Os dias de um digno professor parecem não ter fim. Quando ele pensa que não há mais trabalho a ser feito, novas demandas lhe são direcionadas (ainda que por força de sua própria vontade e necessidade) mas, intrinsecamente, seu inconsciente proclama a busca insaciável pelo conhecimento e pela instrução. Ele sabe que não pode parar e recuar, pois ele está em uma missão, uma peregrinação que o levará às respostas dos dilemas que martelam em sua consciência.

O digno professor é um peregrino do caos. Ele está sujeito às mudanças que as estações da vida educacional e os tempos modernos colidem sobre a esfera da vida comum a todos os cidadãos. Tudo no mundo regride ou evolui, e o educador deve estar preparado para lidar com as desenvolturas de um mundo aleatório e dinâmico. Se ele permanecer no passado, sua metodologia morrerá com ele, impassível e sem vida. Se ele permanecer no presente e negligenciar passado e futuro, seu intelecto se atrelará aos julgamentos e parcialidades, sem considerar a cultura e o valor histórico e integral do mundo. Se ele pisar seus pés exclusivamente no futuro, ele jamais tornará a abrir a consciência dos educandos para as virtudes e os excessos do passado e para as transformações que o futuro prenuncia.

O digno professor é um peregrino da vontade e da superação. As pessoas que não trabalham com ensino não podem sequer imaginar o que é a rotina de um educador. Educar é uma tarefa que exige disciplina, resistência física, mental e emocional. O professor, sujeito fatigado pelas amarras dos desafios e das dificuldades, muitas vezes precisa gastar as reservas de energia para suportar a gravidade que emana de uma rotina exaustiva. Por mais que ele faça o que ama, há dias em que o peso dos esforços e das tarefas impera sobre o seu vigor e a sua saúde e suplica pelo descanso merecido.

O digno professor é o peregrino das emoções, um mestre que eleva e preconiza a arte de cativar e reter a atenção de seus alunos. Ele pratica a linguagem como quem pratica a compaixão. É a mesma luta suave e descomplicada. Na erupção da tônica projetiva da voz, um rompante de boas novas cruza a linha tênue entre a autoridade e a conquista da plateia. Cada aula constitui um novo espetáculo, uma nova encruzilhada, um novo alvorecer do aprendizado, uma nova forma de viver. O digno professor é capaz de exercer empatia sem ser apegado, e capaz de ser líder, sem ser autoritário. Jamais eleva o tom de sua voz sem antes considerar todas as possibilidades de exercer a influência persuasiva e inteligente.

O digno professor é um peregrino mestre da paz e da tolerância. Seu juízo não vacila perante as maleficências profanadas pela mesquinhez e pela maldade. Seu juízo é imparcial; ele avalia todos os lados de uma questão, e estimula nas consciências o emergir das profundezas mais inacessíveis do pensamento, consequentemente abrindo os corações dos jovens para os valores e os sentimentos mais nobres do espírito. O professor é a relva de esperança que urge quando não mais habita o relevo da temperança e do juízo sobre a razão humana. Ele conhece as diversidades das culturas, das religiões e de todos os tipos de gênero, estabelecendo um firme compromisso com o respeito e a ética dos valores, que evidenciam ações e pensamentos generosos e altruístas.

Creio na educação como uma fonte elementar de substância comum a todas as vidas. Todos nascem com uma predisposição para educar, ainda que mínima e inconsciente. Cabe a tarefa dos que persistem no caminho incansável da sabedoria guiar os inconscientes, os desprovidos de amor e os menos esclarecidos, e fazê-los enxergar o lastro de miséria em que se encontram. Nenhum propósito no céu e nenhum propósito na Terra serão tão iluminados quanto a relutância de um educador que abdica de grande tempo da sua vida para elevar os corações a um plano superior da consciência.

Um abraço!

Guilherme Valentim Mendes / E-mail para contato: gvm86@uol.com.br

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