Comportamento empreendedor e gestão do cotidiano escolar

cotidiano_escolarProf. Guilherme Mendes

O cotidiano escolar coloca em evidência a realidade da escola como ela se apresenta, e constitui um elemento importante da ação educacional.

De acordo com a especialista em gestão educacional, Heloísa Lück (2009, p. 127), as competências a serem observadas pelos gestores no cotidiano escolar envolvem de uma forma geral:

  • Observação e influencia das regularidades do cotidiano escolar, como por exemplo, a conduta dos professores, funcionários e alunos, o modo como respondem a desafios, como interagem entre si, a ocorrência de conflitos e sua natureza, etc.
  • Promove no cotidiano da escola a adoção de regularidades e rotinas necessárias à superação das regularidades que prejudicam a formação do ambiente escolar educativo.
  • Incorpora no cotidiano da escola a utilização da Tecnologia da Informação e do Conhecimento (TIC), como apoio à gestão escolar e favorecimento da aprendizagem significativa de alunos.
  • Assegura o cumprimento das rotinas de limpeza, segurança, qualidade da merenda escolar, realizando e fazendo realizar verificações rotineiras, assim como providenciando as manutenções e correções necessárias.

A partir das competências relatadas acima, compreende-se que o cotidiano escolar representa um conjunto de práticas que ocorrem diariamente em uma instituição de educação, e que constituem eventos que podem sobrepujar o planejamento do gestor.

Para Lück (2009, p. 128), é preciso promover mudanças nas práticas do cotidiano. Caso contrário, mantém-se o “status quo” nas escolas, embora se alterem os discursos oficiais a respeito delas e do seu trabalho.

Destaca-se o comportamento empreendedor como fundamental para a compreender a dinâmica da organização escolar e como adoção para uma estratégia de gestão educacional empreendedora.

Os gestores escolares precisam aprender a administrar as instituições escolares ultrapassando o domínio de conteúdos científicos, técnicos e experimentais, pois as mudanças desejadas por Lück nas práticas do cotidiano devem ser significativas para o coletivo, e não apenas visando interesses pessoais e de prestígio.

A partir do conceito de Fernando Dolabela (2003, p. 29), o conhecimento empreendedor é aquele capaz de “modificar a realidade para dela obter a autorealização e oferecer valores positivos para a coletividade. Significa engendrar formas de gerar e distribuir materiais e imateriais por meio de ideias, conhecimentos, teorias, artes, filosofia”. É esse conhecimento que os gestores devem desenvolver e aprimorar ao longo da jornada educacional.

Compreende-se que na gestão escolar convencional, os comportamentos podem constituir “verdades definitivas”, as quais denotam ou representam a sensação de autoritarismo, de forma que os que estão abaixo na escala hierárquica ficam impotentes.

Os gestores são vistos como poderosos e os grupos de apoio como os professores são considerados como meros “recebedores de ordens”. Isso se justifica quando o próprio professor reconhece que não há um diálogo entre o gestor e a comunidade escolar.

É possível afirmar que a presença da coletividade no cotidiano escolar, bem como na tomada de decisões é imprescindível para a democracia, para a aprendizagem e para o desenvolvimento de uma gestão eficiente.

É importante considerar que o cotidiano escolar, tratando-se de competências previsíveis e imprevisíveis ao processo de gestão, bem como um ambiente onde se formalizam as práticas sociais, permanece desvalorizado e desconsiderado como menos importante. Como afirma Lück (2009, p. 128), “a busca de estratégias ou alternativas para melhorar a escola podem desconsiderar o cotidiano escolar”. Como esse cotidiano é visto como sem importância na determinação das qualidades do ensino, descuidam-se dos processos quando se pretende promover tais qualidades.

Nesse sentido, o comportamento empreendedor, relacionado a “mentalidade empreendedora” proposta por Jerônimo Mendes (2015, p. 13) como “o esforço individual ou coletivo para a formação e solidificação da cultura empreendedora”, são complementares para a interpretação do papel da gestão no cotidiano escolar.

De acordo com Mendes (2015, p. 46), o bom desempenho de uma instituição depende do conjunto de forças aplicadas na mesma proporção em qualquer ambiente, capaz de impulsionar e moldar o estilo de vida a serviço do bem comum. Tentar separá-los e imaginar que é possível adotar comportamentos diferentes em cada campo de atuação termina sempre em conflitos com a própria natureza humana.

Assim como um empreendedor de negócios deveria investir suas energias no compromisso com a mudança e a prosperidade, o gestor educacional também deveria investir suas energias em ações e decisões capazes de transformar o modelo de práticas educacionais, visando atingir todos os segmentos escolares.

Outros componentes além das ferramentas e concepções empreendedoras se enquadram entre as competências imprescindíveis para o estudo da gestão do cotidiano escolar: são os eixos situacionais e os valores ético-morais empreendidos no relacionamento entre os profissionais e a comunidade escolar.

A seguir, as características dos eixos situacionais do cotidiano escolar para o desenvolvimento de competências na realização da educação da qualidade, fundamentadas por Lück (2009, p. 130), são complementadas pelo quadro de valores ético-morais, fundamentado por Emiliano Gomez (2005, p. 52), que evidenciam valores característicos do compromisso do gestor com a liderança ética educacional.

Quadro complementar – Eixos situacionais e valores de liderança

Eixos situacionais – Lück

Valores ético-morais – Gomez

Relacionamento interpessoal dinâmico.

Respeite os diferentes pontos de vista, mesmo quando não concorda com eles.

Ênfase na diversidade das partes, para formar a unidade do todo.

Utilize toda sua experiência de vida como uma oportunidade de aprendizado constante.

Responsabilidades compartilhadas em comum por todos os setores profissionais.

Procure honrar seus compromissos perante fornecedores, colaboradores e clientes.

Pessoas a serviço da educação como responsabilidade social.

Pratique a excelência, empenhando todos os esforços para a construção de um mundo melhor para a sociedade através do seu empreendimento. Faça o melhor esforço possível.

Foco no desenvolvimento, na aprendizagem e construção da organização.

Mesmo do item anterior.
Unidade de trabalho: o resultado a ser alcançado.

Pratique o não-julgamento ou o julgamento com base somente nos resultados.

Reforço à competência coletiva.

Apoie o crescimento pessoal e profissional de todos aqueles que fazem parte do seu círculo de relacionamentos.

Para Cipriano Luckesi (1999), o acesso universal ao ensino, a permanência na escola e a qualidade do ensino são elementos essenciais que possibilitam ao aluno atingir um nível de clareza e de compreensão necessários para viver na sociedade contemporânea, marcada por grande complexidade.

Para Luckesi, a ausência de qualquer um dos elementos constitui um ato antidemocrático, o que favorece a emancipação do indivíduo. Para garantir a concretização desses elementos na escola, as ações da gestão devem priorizar os esforços para a excelência a nível pessoal, e não apenas a nível profissional.

Complementando as ideias do parágrafo anterior, no quadro acima, os eixos situacionais são complementares aos valores ético-morais, de forma que os elementos essenciais que favorecem o desenvolvimento educacional devem ser considerados a partir da conscientização e da incorporação dos valores no ensino e sobre as competências empreendedoras.

Não basta ao gestor viabilizar ações empreendedoras na instituição, se elas não forem acompanhadas de competências pautadas nos valores e compromissos éticos dos profissionais envolvidos.

A escola precisa ser competente nas funções que desempenha. A sua função não deve focar exclusivamente a viabilização e a construção de conhecimentos, mas o empenho para formar cidadãos participativos na sociedade, dirigentes de suas vidas e sujeitos ativos da realidade em que vivem.

A educação tem um papel fundamental a cumprir na constituição de um mundo mais solidário, e o comportamento empreendedor pode contribuir no sentido de viabilizar mecanismos de ação que possam de alguma forma alavancar o ensino.

Na escola, a gestão deve constituir a conscientização para a prática consistente dos elementos educacionais e de valores, aliados com os princípios do comportamento empreendedor.

Referências para consulta:

  • LÜCK, H. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Editora Positivo: Curitiba, 2009.
  • LUCKESI, C. A avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 1999.
  • DOLABELA, F. Pedagogia Empreendedora. São Paulo: Editora de Cultura, 2003.
  • GOMEZ, E. Liderança ética. São Paulo: Planeta, 2005.
  • MENDES, J. Manual do Empreendedor: como construir um empreendimento de sucesso. São Paulo: Atlas, 2015.

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