A conquista da Natureza pelo homem

mente_humanaProf. Guilherme Mendes

“Um pensamento ardeu na minha mente: por mais que ele dissesse e por mais que me lisonjeasse, vender-me-ia como escravo quando me tivesse em seu poder.” (Bunyan)

Nas palavras de C. S. Lewis, a “conquista da Natureza pelo homem” é uma expressão utilizada habitualmente para descrever o progresso das ciências aplicadas.

Não se pode menosprezar a imensa gama de benefícios que a “conquista humana” tornou possível através dos séculos. De forma nenhuma critico a sagacidade e o potencial humano para desbravar as mais latentes possibilidades do espírito.

As paixões e sacrifícios humanos renderam inúmeras gratificações por desvendar os mistérios e enigmas do universo, por oferecer a chance de melhorar a saúde e as condições de vida, por demonstrar a beleza e criatividade dispostas na arte e na engenharia, entre outras inúmeras relíquias do potencial humano.

Todavia, caro leitor, permita-me indagar dois contrapontos mais profundos para a concepção inicial do nosso diálogo:

O homem é realmente superior a Natureza?

A conquista da Natureza é um mérito concedido aos esforços do ser humano, ou uma condição influenciada por fatores inerentes aos sistemas da vida humana?

O raciocínio para debater as questões ficará mais claro se eu transcorrer o significado do termo “Natureza”. Na realidade, Natureza é uma palavra com muitos significados, que pode ser compreendida, de acordo com Lewis, se analisarmos seus vários opostos. Natural se opõe a Artificial, Civilizado, Humano, Espiritual e Sobrenatural.

A Natureza é espacial e temporal; ela entra em contraste com o que pertence a outros domínios; ela é o mundo da quantidade em oposição ao mundo da qualidade; de tudo o que concerne ao material em oposição ao que é da consciência; da ausência de valores inerentes ao produto interno em oposição ao que se percebe dos valores e ao externo.

A condição de Natureza pressupõe o vínculo do ser humano com os juízos, abstrações, apegos e causas que delimitam as raízes do mundo exterior em contraponto ao mundo interior.

Para responder as duas questões, apoio-me no exemplo das influências tecnológicas sobre a vida humana moderna. O uso de diversos aparelhos no cotidiano do cidadão comum, como o celular, a televisão, o computador, o rádio, entre outros acessórios, facilitou em muito a comunicação para diversas finalidades. Entretanto, o homem não pode afirmar que exerce poder e controle sobre a Natureza pelo simples uso de tais utensílios.

Nas relações entre o homem moderno e os mecanismos de facilitação e entretenimento, há uma relação de dependência, pois seria uma tarefa hercúlea imaginar a vida humana sem tais referências. Não se pode afirmar que o cidadão da metrópole seja capaz de governar integralmente sua própria vida ou não ser atingido pelas exigências profissionais sem estar sujeito ao domínio (básico ou fluente) das tecnologias.

Se a tecnologia predomina em cada particularidade dos sistemas humanos, e o homem é incapaz de exercer o domínio sobre sua utilização, sendo gravemente afetado por isso, pode-se afirmar que não há, de fato, poder do homem sobre a natureza, e sim um poder exercido pelos sistemas e por outras pessoas neles envolvidas, com a natureza como instrumento de mediação e dependência.

Outro exemplo para ilustrar a questão é o uso de anticoncepcionais. Pela contracepção, nega-se a existência da vida. Pela contracepção usada como meio de reprodução seletiva, um ser vem ao mundo pelas razões que a geração determina.

Sob esse ponto de vista, o homem também não exerce poder sobre a Natureza, e sim sobre os outros, com a Natureza como instrumento.

De acordo com C. S. Lewis, a compreensão do significado do poder deve considerar a raça humana no tempo, e as consecutivas gerações que exercem poder sobre os seus sucessores. Nesse caso, a progressiva emancipação da tradição e um crescente controle dos processos naturais resultam em um contínuo crescimento do poder do homem.

Portanto, se considerarmos a predomínio absoluto e infalivelmente contínuo da Natureza e poder das tecnologias sobre a vida humana, os últimos homens, longe de serem os herdeiros do poder, serão os que mais estarão sujeitos às influências impactantes e revolucionárias das condições modernas, e serão os menos capazes de exercer algum tipo de poder no futuro.

Cada novo poder conquistado pelo homem é, de fato, poder conquistado para subjugar outros homens. Cada avanço parte de uma nova conquista, que aflige os mais fracos, e protege os mais fortes. Essa ambivalência dos destinos de poder e conquista humana não é algo bom ou mau. Não quero me ater a essa questão, que necessita uma compreensão mais aprofundada e pertinente sobre o tema.

No mais, a natureza humana será a última parte da Natureza a se render ante o Homem. No ímpeto de preservar a sanidade que a raça humana ainda possui, os idealizadores de um futuro próspero e acessível a todos os cidadãos partem do pressuposto de que os juízos de valor deverão ser produzidos (se possível) como a razão da educação, e não por condicionamento dos poderes controladores.

Esses idealizadores seriam os candidatos à propagação e aprofundamento da virtude e dos valores sobre as ações humanas. Podem ser todos os cidadãos desprovidos de apegos ao mundo sensorial; podem ser os cidadãos comuns que exercem a espiritualidade no cotidiano da vida; podem ser educadores, cientistas, políticos ou líderes religiosos que inspiram outras pessoas a agir com base no apego aos juízos de valor interior.

Cada vez mais, as pessoas precisarão se apoiar na força das virtudes, para não se perder em meio ao progresso científico. Meu pensamento não trata de uma ataque para confrontar a ciência e a razão, mas na importância da preservação do que o ser humano possui de mais valioso e que é permanente para todo o sempre no coração dos que desejam propagar sabedoria e entendimento para os novos tempos.

O homem precisa aprender a viver em equilíbrio com as coisas do mundo, e não se apegar demasiado a elas para não sofrer o colapso da alma. O amor pela verdade, condição daqueles que fundaram a ciência moderna, não deve ser suplantado ao amor pelo poder. Ciência, responsabilidade e virtude devem caminhar sempre juntas, ainda que confrontem diferenças em suas concepções.

Um abraço!

Guilherme Valentim Mendes / E-mail para contato: gvm86@uol.com.br

Referência para consulta:

– LEWIS, C. S. A abolição do homem. 2ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

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