Uma análise sobre Educação em Valores Morais

educação_em_valoresProf. Guilherme Mendes

“Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento.” (C. S. Lewis)

Segundo o dicionário Aurélio, a palavra “Moral” deriva do latim [morale, ‘relativo aos costumes’]. O conceito do termo implica em:

“1. Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer do modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada; 2. O que há de moralidade em qualquer coisa; 3. Que tem bons costumes; 4. Relativo ao espiritual (em oposição a físico ou material).

A moral está inevitavelmente inserida no contexto familiar e educacional de todos os cidadãos, em escala positiva ou negativa, em menor ou maior grau. É impossível dissociar sistemas de regras de condutas e comportamentos humanos, justamente porque o ser humano é um ser dependente.

Somos dependentes desde o dia em que nascemos. Dependemos do esforço e das ações de nossos pais para percorrer o caminho do conhecimento e do amadurecimento. Somos dependentes das relações sociais pelas quais estabelecemos vínculos que nos apontarão as diretrizes de nosso destino. A maior parte da humanidade depende do aprendizado e da inserção no mundo social para consolidar seus interesses e projetar sua identidade.

Pelo viés da Psicologia da Moralidade, que é a “ciência preocupada em desvendar por que processos mentais uma pessoa chega a intimamente legitimar, ou não, regras, princípios e valores morais” (La Taille, 2006a, p. 9), destaca-se a seguir as descobertas de Jean Piaget, pioneiro nas pesquisas sobre moralidade e cuja obra é referencia para os estudiosos da área.

Basicamente, de acordo com o pensamento de Piaget (1932/1994):

“toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras.”

O pensamento de Piaget preconize a valorização intrínseca do respeito nas condutas e relações humanas. Considera-se que o respeito constitui um dos elementos fundamentais para a aquisição de valores morais. Sem respeito, não é possível construir uma sólida ética e cidadania ao longo da vida.

Quando uma pessoa passa a compreender a dimensão do seu dever, as noções do bem e do mal, significa que a moral começa a fazer do seu universo de valores. Certamente toda e qualquer pessoa aponta uma tendência infalível para pensar a moral, em seu aspecto positivo ou negativo.

A intenção de uma educação pautada em sistemas de regras, valores e princípios está na construção da autonomia dos seres humanos. Esse propósito se alinha com inúmeros outros objetivos, como a cooperação, a reflexão crítica sobre a realidade, de cuidado com a natureza e o meio ambiente, de sentimentos como generosidade, fraternidade e de virtudes.

Todavia, uma educação que enfatiza o privilégio de exercer os valores morais e as virtudes como fonte de importância e aprendizado não pode limitar as suas ações apenas à concretização de projetos em âmbito escolar ou acadêmico. Uma sólida educação encontra nas raízes do exemplo pessoal e do sacrifício as respostas para consolidar valores e virtudes pautados na cooperação e na solidariedade.

Se um professor deseja ensinar a importância de exercer o respeito e a tolerância na vida cotidiana, ele deve ser uma autoridade no mais genuíno e puro sentido dos termos respeito e tolerância. Da mesma forma, um pai que deseja ensinar o valor e importância da educação financeira aos filhos deve ser exemplo de disciplina e temperança no trato com o dinheiro. Sem o poder magnífico do exemplo pessoal, não é possível estimular a melhoria do autorrespeito e da autoestima do cidadão.

A conscientização é algo muito mais sensível que a mera especulação teórica e conceitual dos assuntos relativos a moral. Particularmente, eu penso que a conscientização deveria doer, pois somente quando um cidadão sente o peso de suas ações e responsabilidades, ele se dá conta dos louros ou vergonhas que produz e vivencia, sendo posteriormente capaz de discernir e melhorar sua conduta em sociedade.

Nesse sentido, um esforço coletivo e pautado pela força do exemplo pessoal é necessário para vencer e substituir padrões de comportamento negativos, de intolerância, de vergonha e de humilhação. É um processo árduo, que demanda muita força interior e um longo caminho de conscientização, mas é o único caminho (no meu ponto de vista) para quebrar o elo com as maldições e resquícios negativos que ainda predominam em sociedade.

Como proferido nas belas palavras do escritor C. S. Lewis, “o crescimento é a síntese de mudança e continuidade.” Não se eleva a moral e a identidade cultural de uma nação com meras e passageiras mudanças, mas através de sólido esforço e sacrifício, constituindo-nos como veículos do exemplo e da tão proclamada “esperança”, que é o que move os cidadãos para o bem comum, todos os dias de suas vidas.

Um abraço!

Referências para consulta:

  • FERREIRA, A. B. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ed. Curitiba: Positivo, 2004.
  • MENIN, M. S. BATAGLIA, P. U. R. ZECHI, J. A. Projetos bem-sucedidos de Educação em Valores. São Paulo: Cortez, 2013.
  • PIAGET, J. (1930). Os procedimentos de Educação Moral. In: MACEDO, L. (Org.). Cinco estudos de educação moral. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996, p. 1-36.
  • PIAGET, J. [1932]. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.
  • LA TAILLE, Y. de. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006a.

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